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  • Thamara Laila

UAU, ELA É JORNALISTA


Eram quase 20h quando entrei no elevador do meu prédio, seguida, por duas meninas. Eu estava no canto, olhando para baixo e com o corpo meio caído. As garotas comentavam algo, riam e olhavam para mim. Por um minuto, pensei que meu zíper estava aberto, mas não era isso o que elas olhavam. Só fui entender o motivo dos olhares no décimo andar. Quando a porta estava quase fechando ouvi uma delas dizendo:

– Uau, ela é jornalista. Uma jornalista mora no mesmo prédio que a gente. Adorei.


Achei engraçado a forma que a menina, que aparentava ter uns 16 anos, falou da minha profissão. Quando eu tinha essa idade, também achava jornalismo sinistro para cacete. Quando ingressei mesmo em uma redação, vi que o glamour, que todo mundo comenta, não existe. É pura imaginação.


É raro encontrar um jornalista que trabalhe menos de dez horas por dia. É raro jornalista que consegue ir a todas as festas, seja de família ou amigos. Jornalista está sempre de plantão e mesmo quando ele não está, está. Eu desconfio que a tradução da expressão full time seja jornalista. Não paramos nunca e estamos sempre com um olhar e os ouvidos atentos para um possível pauta.


Mãe de jornalista não entende a profissão. Amigos de jornalista idem. Namorado então, ixi, nem se fala. Só entende jornalista quem é do ramo. Minha mãe é do tipo que guarda minhas matérias, que já chorou com minhas capas, mas sempre está dizendo para eu pedir demissão. Meu namorado até tenta entender, as horas extras, o salário baixo e a minha fixação por ler notícias, mas, no fundo, ele também não entende.


Sabe, jornalismo é feito de altos e baixos. Na minha opinião, mais baixos do que altos. Lidamos com a pressão, falta de reconhecimento, plantão em tiroteios e enterros. Mas, sempre tem um dia que você faz uma matéria genial, que o editor elogia seu lide, que um leitor manda um e-mail agradecendo pelo pequeno problema que você ajudou a resolver e que um entrevistado te abraça forte depois de uma matéria. O dia bom sempre chega.

São esses dias que nos mantém durante toda a tempestade. São nesses dias que nos apaixonamos de novo pela profissão. São nesses dias que entendemos nossa escolha. Claro, esse momento de positividade passa rápido, pois jornalista é bicho reclamão. Mas, por hoje, eu vou guardar meu crachá com carinho e vou dizer em voz alta: uau, eu sou jornalista.


Texto escrito dia 11 de agosto de 2014

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