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  • Thamara Laila

SINAL VERMELHO

Atualizado: 6 de Out de 2019


O dia amanheceu e seu olhar estava caído, seu corpo insistia em permanecer escondido debaixo das cobertas. Estava quente, aconchegante e ali parecia ser um bom lugar para se esconder. Era seguro. O despertador insistia, a porta da varanda e da cozinha já estavam abertas, o misto estava quase pronto, o som das buzinas já ultrapassam as paredes e o jornal da manhã já estava noticiando o trânsito do Rio de Janeiro. Levantou-se. Andou com a cabeça baixa, escolheu a primeira roupa. Não se sentia bem. Tomou banho, comeu uma maça, escovou os dentes, sorriu para o espelho e despediu-se de sua irmã.Saiu.A banca estava aberta e o Sr. Pedro já estava separando o seu jornal, mas ela fez sinal que depois compraria e o Sr. Pedro abriu um grande sorriso, o qual ela não conseguiu retribuir. Apressou o passo.


Ao chegar na esquina, o sinal pulou rapidamente para o vermelho, o que a fez continuar o seu caminho. Amarelo, vermelho, nunca o verde. O sinal nunca estava verde para ela. Andou e estava quase chegando ao seu destino. Precisava pensar em algo alegre. Alegria, o que era mesmo isso? – riu ironicamente. Seus pensamentos começaram a correr, e ela mais ainda. Estava no prédio, oitavo andar, porta 805. Destino. Destino? Para onde estava andando o seu? Que caminho torto era esse que ela estava seguindo? Destino? Carma? Sorte? Cansou dessas perguntas sem respostas. Tocou a campainha. Arrumou o cabelo, murchou a barriga. E aquela voz – aquela maldita voz – gritou:


– Toma! – o olhar confuso dele foi algo inesperado, e as palavras mais ainda:

– Você tem certeza? e ela prontamente respondeu: – Faria alguma diferença?

– Talvez.

– Talvez? Hm, não, não faria. Nunca fez.

– Não precisa falar assim.

– Ok, toma as chaves e tchau.

– Até logo.

– Não, tchau!

Ela não esperou a porta ser fechada, saiu e chamou o elevador. Lembrou-se o quanto costumava sair feliz por aquela mesma porta, cabelos molhados, gosto de café na boca  e o cheiro dele na roupa. Ele, dele. Balançou a cabeça. Raiva. Raiva. Raiva. Nunca tinha reparado no quanto aquele elevador demorava. Apertou, mais uma vez, o botão do primeiro andar.

Ficou no canto do elevador, e isso a fez pensar no quanto o elevador parecia com a sua vida. Uma pequena caixa, com alguns destinos, com nenhuma parada fora da rotina, com nenhum movimento brusco, com alguns passageiros, com pouco espaço e muita bagagem. Uma caixa onde ela ficava no canto. Uma caixa onde ninguém ficava para sempre. Uma caixa com uma única saída. Uma caixa silenciosa e vazia. Seus pensamentos foram interrompidos pela voz que dizia: primeiro andar. Olhou o número primeiro, não era um primeiro inteiro, era feito de tracinhos, tracinhos separados, tracinhos vermelhos. Vermelho. Vermelho fraco, partido, sozinho. É. Ajeitou sua bolsa e saiu, não tinha como fugir, pois só havia uma saída, e por mais duro que fosse, precisava sair por aquela porta e encarar os sinais vermelhos.

Primeiro texto que escrevi e publiquei na internet. 23/03/2012

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