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  • Thamara Laila

QUEM MATOU O SONHO?


Uns quatro meses após iniciar o estágio na empresa dos meus sonhos, lembro da minha intuição pedir um momento a sós. Ela tinha algo importante a dizer, mas eu estava 24 horas por dia focada naquele objetivo. Não tinha tempo. Passou um ano dessa forma, até o momento que precisei entrar na sala apertada da redação cinzenta e ficar cara a cara com aquele que diria qual seria o próximo passo da minha carreira. Lembro de ter falado baixinho, enquanto ele arrumava o óculos e se ajeitava na cadeira: Universo, se não for esse o caminho, que eu não seja chamada como trainee. E, realmente, não fui. Fui chamada para ser repórter. E aceitei. (na hora interpretei que esse era o caminho. Hoje, já vejo que o Universo me deu a resposta certa, eu que interpretei errado. Afinal, não fui chamada como trainee, né? E esse era o trato. Mas aconteceu como tinha que ser.)


Quanto menos espaço tinha, mas minha escrita adoecia. Quanto mais regras apareciam, mas ela morria em mim. Tudo era rápido demais. Automático demais. Cinco histórias, para alguns centímetros de texto. Corta. Corta. Corta. No trabalho ou na faculdade, faça isso, faça aquilo, nada disso. O mínimo incentivo para sentir era podado pela falta de espaço, pela objetividade, pelo nome todo do personagem mais a idade mais a profissão mais o lugar onde mora mais a data do dia mais o motivo da matéria ufa agora coloca a história, transforma em aspa três horas de entrevista em cinco palavras. É o que dá. Corta. Libera.

Eu sabia que tinha algo errado, mas achava que era apenas o meu medo falando mais alto. E, sem perceber, deixei cada palavra que saia da boca dos outros se tornarem a minha verdade.  “Thamara não tá bom. Thamara tá cheio de erros. Thamara isso não está criativo. Thamara a crase está errada. Thamara vá direto ao ponto. Thamara olha a vírgula. Thamara não vá além do espaço. Thamara você perdeu o jeito. Thamara, cadê a Thamara da época do estágio. Cadê? Ela estava intoxicada demais para comparecer.”


Cada observação era levado a ferro e fogo. Eu me ceguei ao ponto de não ver elogios. Quando eles vinham, eu jogava no lixo ou distorcia até ficar como crítica. Afinal, tinha montado a minha zona de conforto. Nela, eu me detonava o máximo possível e me mantinha na zona de reclamação. Ao invés de pegar e me fortalecer, me permiti ser tudo o que eles falavam, comentavam. Eu não tinha consciência, nem as rédeas, nem esperanças. Aceitei que não tinha nascido para aquilo. Assinei e rubriquei todas as vias do certificado: a Thamara não é boa o suficiente para escrever. Pronto. Está morta a menina, o sonho, a escrita. 


Eu fui de a menina sonhadora, sempre com um caderninho na bolsa e muita magia no olhar para a mulher que jogou fora, de uma única vez, todos os papéis e qualquer coisa que remetesse aquele sonho. Como o emprego dos meus sonhos destruiu o sonho?  Na época não entendia, mas hoje reconheço minha parcela de culpa e sei que eu permiti. E demorei um bocado de tempo para compreender isso, afinal, é sempre mais fácil culpar o outro, né? Então, fiquei um bocado de tempo culpando os editores, o mercado, o jornalismo. Quando, na verdade, a culpa foi minha. Eu permiti que matassem meu sonho. Eu permiti que ditassem quem eu deveria ser. Eu me deixei intoxicar. 


Adoeci. E afundei. Fui ao fundo do poço e fiquei alguns anos por lá. Não queria nem mais escrever lista para ir ao mercado. Chega de palavras. Chega de jornais. Chega de livros.  Chega de sonhos. Os dias passavam, a vida não parava e a dor não diminuía. Lembro de uma vez, menina moleca, ralei o joelho andando de bicicleta. Minha mãe passava merthiolate. Nossa senhora, eu odiava merthiolate. Mas para arder menos, imaginava que era uma poção e que toda vez que eu precisasse usar, meus joelhos ganhavam mais força para atravessar os portais mágicos. Entende o problema? É na escrita, na imaginação, no voo que eu me curo. E como fazer isso agora? Agora que cortei as asas da escrita e a deixei presa com os ecos do passado?


O retorno para ela foi como um mergulho no mar. Coloca a pontinha do pé e dá uns pulinhos para trás com a água gelada. Tenta de novo e agora a água alcança os joelhos. Olha, já não é mais tão desconfortável assim. Joga um pouco de água na nuca. Arrepia e Acalma. Aumenta o frio da barriga. Pede licença. E mergulha. Mesmo sem saber a profundidade. O movimento do mar se mistura com o meu de uma vez só. Quanto mais profundo, mais gelado. Quanto mais gelado, menos dói. E quanto mais mergulho, mais desperto o que sou.


Alguns dias dou braçadas mais fortes de cortar o papel. Outros, histórias são deixadas no rascunho para pegarmos um fôlego na superfície. E mesmo com as ondas quebrando e despedaçando alguns diálogos, afastando alguns personagens, as palavras voltaram a brincar no mar. E, lá no fundo não precisamos de aprovação, nem ser a melhor. Não importam os likes, nem o ego. Não precisamos ser vistas. Nem ouvidas. Apenas seguimos. A escrita e eu. Eu e a escrita. No nosso fluxo, no nosso tempo, com o nosso jeito de amar, ver, sentir e criar. E voltou a ser como sempre. E isso basta.

Demorei um tempo para tirar essa história de mim, para assumir minha culpa em tudo. Passei meses querendo voltar atrás com a consciência que tenho agora, mas não dá. Aproveito para te perguntar: Qual o seu maior sonho? Ele vive ou sobrevive? Ele está sendo alimentado ou envenenado? O que você anda permitindo que os outros matem em você? Preste atenção. Somos únicos demais para deixarmos os outros dirigirem a nossa vida. 


#escrita #escritacriativa #sonhos #cartasparaescrita

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