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  • Thamara Laila

MEU BLOCO, DONA SUELI E A CHUVA

Atualizado: 6 de Out de 2019


Era a segunda vez naquela semana que a minha pauta era escutar as reclamações de moradores da Baixada Fluminense sobre o estado de suas ruas. Não é fácil aparecer com um bloquinho na mão e perguntar, mesmo vendo o caos da rua, qual o problema do local. Mas, os moradores são sempre educados e atenciosos. Relatam cada probleminha e contam os problemas que já passaram.


Eram quase três horas da tarde, meus olhos procuravam alguma rua em um estado muito ruim. No fim de Nova Iguaçu encontrei uma. Parei o carro, peguei meu bloquinho, uma caneta e pendurei uma câmera no ombro. Enquanto caminhava reparei na marca da água nas paredes, no acúmulo da lama nas calçadas, na lama escondendo o asfalto e então, me deparei com uma casa na calçada. Isso mesmo. Todos os móveis, roupas e até eletrodomésticos estavam em frente a um portãozinho tombado para esquerda. Me aproximei e a Dona Sueli apareceu.


Olhar abatido, vestido simples e um pouco sujo. Cabelo preso de qualquer jeito e um olhar totalmente sem esperança. Abaixei meu tom de voz – que costuma ser absurdamente alto,  me identifiquei como repórter e perguntei o que tinha ocorrido. Dona Sueli, levantou os olhos lentamente, me analisou por alguns segundos e então contou sua história.


A chuva da última quinta-feira tirou tudo que Dona Sueli tinha construído e conquistado nesses últimos 40 anos. Sueli relatou que gostava da chuva, mas a última foi pior que tempestade. A força da água fez com que os móveis flutuassem. Enquanto subia na cama com suas filhas e a cachorra Panufa, Sueli viu o seu sofá novinho sendo destruído, viu as fotos da família boiando e indo de encontro ao pote de nescau que estava na pequena mesa da cozinha. A chuva não deu trégua e na manhã seguinte, Sueli precisou encontrar forças para colocar quase toda sua casa na calçada. Nada mais prestava.


Sueli chorava e eu segurava minha emoção. Mas, como ser distante em uma situação dessa? Ela perdeu a casa, as esperanças e quase perdia a fé. Tentei melhorar o rumo da conversa, disse que Deus iria ajudar. Mas, Sueli olhou no fundo dos meus olhos e disse: “Trabalho no Centro, perco minha vida no trânsito e o pouco que consigo, a chuva destrói. Não acho que Deus está olhando por mim.”


Mais uma vez engoli a seco. Não sabia como passar força para aquela senhora. Não sabia até que ponto era a Thamara ou a repórter Thamara. Deixei que as duas se misturassem. Levantei a Dona Sueli, abracei e disse que ela estaria em minhas orações. Pedi que ela não perdesse a fé e prometi que faria algo pela rua dela.


Mas, como prometer uma coisa dessa quando eu tenho consciência que o governo não funciona? Quando sei que a prefeitura diz que vai resolver, mas nunca resolve? Quando eu sei que ainda vai chover muito até alguma melhora chegar lá? Percebi o quanto as palavras podem ser pequenas perto de situações como a da Dona Sueli. Voltei para a redação transtornada e me sentindo impotente.


São dez horas da noite, a chuva invadiu minha janela e molhou meu livro. Levantei rapidamente e fiquei olhando a força da água. Com a expressão ainda assustada e o coração acelerado, me ajoelhei, juntei as mãos e pedi com todas as forças que Deus ajudasse a Dona Sueli e tantas outras pessoas que estão nessa situação. Ao fim, me levantei e ainda olhando a chuva, também pedi que Deus fortalecesse as minhas palavras para que elas possam fazer alguma diferença, para que elas possam ter a chance de realmente mudar situações como a da Dona Sueli.


Texto escrito em 10 de dezembro de 2013.

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