• Thamara Laila

aprendi a nadar no mar


aprendi a nadar no mar. todo verão, minha avó Nita nos levava para as aulas no posto 6 em Copacabana. após encontrar o meu grupo, saíamos cantando com o professor pelo calçadão "acorda maria bonita, acorda para fazer o café, que o dia já está raiando e o botinho já está de pé. de pé. de pé. de pé" engraçado como a memória funciona. só de cantar, sinto o chão quente e a maresia.


não aprendi a nadar em uma piscina, com águas controladas e limite de profundidade. não aprendi a ir aos poucos. não lembro quem me ensinou mas, ao chegar na praia, deixo o mar encontrar primeiro os meus pés, me agacho, molho os pulsos e a nuca enquanto peço permissão para entrar. e sempre mergulho de cabeça. inclusive, já ralei feio a testa na areia por querer ir profundo demais quando ainda não era o momento.


lembro também das vezes em que estava tranquila na água e correnteza começou a puxar, ondas grandes surgiam. distante demais da areia, só me restava nadar rápido em direção ao que mais temia. algumas vezes, dava tempo. em outras, a onda quebrava em cima. eu perdia o ar, a consciência e duvidava se seria capaz de voltar a superfície. de um jeito ou de outro, sempre conseguia encontrar a força.


em um dos anos, me colocaram no time de resgate. cada aluno entrava no mar com um teste, o meu foi salvar alguém que não queria ser salvo. enquanto bebia água e lutava para retornar a areia com a pessoa nos meus ombros, o mar me disse para jamais carregar o peso de salvar alguém além de mim mesma.


nas águas salgadas, encontro apoio, ritmo, silêncio, verdades. aprendi a nadar no mar e com o mar e, desde menina, ele me conta histórias sobre uma mulher que mergulhava profundo em si, que encarava tempestades e dias ensolarados com a mesma entrega, que seus sonhos iam além do horizonte, que partilhava o riso e o choro com ele, que fazia o melhor que podia com as condições climáticas do dia, que deixava a lua lhe guiar e revelar, que escutava os mistérios do vento e que tinha o coração como bússola para navegar. ele dizia: a história da mulher que se permitia ser. e, toda vez, que vou de encontro ao mar, vou ao encontro dela também.

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