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  • Thamara Laila

A GAROTA DE JANEIRO

Atualizado: 6 de Out de 2019


Fogos de artifício, ponta dos dedos segurando as sandálias, pés brincando com a areia. A praia estava lotada e champanhe era como chuva. As pessoas se abraçavam, riam e já faziam suas promessas. A garota de janeiro seguiu seu ritual de início de ano e caminhou até o mar. Quando a água encontrou seus pés, ela fechou os olhos e rezou, com toda a fé que tinha na época.


Ao voltar à rotina, mudanças aconteceram. Ela conseguiu entrar no lugar que sempre sonhou trabalhar. A garota de janeiro tinha esperanças e era movida por seus sonhos. Era mais segura, mais paciente. Mas 2013 é ano ímpar e, de alguma forma inexplicável, ela tinha problemas com esse tipo de ano.

Os meses passaram rápido, a hora extra tomou conta da sua vida, a esperança estava por um fio e os sonhos foram ficando embaçados. Às vezes o tempo se torna um inimigo e o passado um peso.


A garota de janeiro não tinha a mínima chance de continuar. Das 24 horas, 14 passava no trabalho. Apesar do esforço, tudo era razoável. Faltou mais aulas que planejado e no tempo livre – se é que podia considerar que tinha isso – dormia, pesadamente.


Em setembro, já não sabia mais quem era, o que queria. Em algum momento, algo se perdeu. E ela queria ter um sinal. Sabe, a vida podia avisar quando você está prestes a cometer um erro. Ou, sei lá, podia apenas sinalizar que você estava se perdendo.


Entretanto, a vida não manda recados. A primavera estava chegando, o calor começava a ser insuportável, mas a garota estava nublada. Com pensamentos embaçados e sem nenhuma certeza de futuro.


Era 4 de novembro, quando ela chegou em casa, jogou as chaves na mesa e desmoronou em sua cama. Por que precisamos decidir nossas vidas com apenas 17 anos? O que sabemos nessa idade para tomar uma decisão tão importante? Para ela, todos deviam viajar após concluir o ensino médio. Conhecer novas culturas, novas pessoas e se arriscar em um ambiente totalmente desconhecido. Mas, não funciona assim. Todos passam por um ou dois anos de total pressão. Faça isso, entre em uma faculdade, seja alguém.


Se ajeitou na cama. Faltava um mês para se formar, para ter a chance de conseguir o emprego dos seus antigos sonhos. Mas, após quatro anos da tal faculdade que tinha que fazer, continuava com as mesmas perguntas de quando tinha 17 anos: o que eu quero ser? Qual meu dom? Como será meu futuro?


A vida não dá chance. E lá estava ela, prestes a completar o tal ciclo normal da vida: colégio – faculdade – trabalho. Se tornou mais uma pessoa frustrada, incompleta e insatisfeita. O dia amanheceu com chuva e ela ficou alguns minutos admirando o barulho que a chuva fazia em sua janela.


Mesmo insatisfeita com o presente, não tinha um sonho que pudesse buscar. Ela não era a mesma. E, às vezes, mal se reconhecia. O ano foi feito de mais baixos que altos e sabia que tinha errado mais que acertado.

Ela queria mudar a situação, mas, afinal, o que fazer quando não se sabe o que perdeu? O que fazer quando você não se encontra? Quando seus sonhos estão embaçados e esquecidos? O que fazer quando não se sabe o que quer?

Texto escrito no dia 24 de novembro de 2013.

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