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  • Thamara Laila

A FORÇA DA AUSÊNCIA

Atualizado: 6 de Out de 2019

Encontrei uma foto nossa rasgada. Lembro do momento em que rasguei. Foi há alguns anos e eu sentia aquele misto de sempre raiva+saudade+frustração. Por que você não pode continuar na minha vida? Nos primeiro anos de vida absorvemos muitas coisas, mas acabamos esquecendo. Lembro tão pouca coisa da gente. Você costumava me amar muito, né? Pelo menos lá no início. Eu acho. Lembro de nunca ser sua prioridade e de me sentir muito especial quando você me incluía em algo. Lembro das vezes que andávamos de porta em porta pra vender bolos. Era seu trabalho, mas para mim era sempre um grande dia.


Por que você não ficou? Eu sei que você tentou. Eu tentei também. Mas não ficamos.


Eu fui crescendo e você sabe que o tempo não volta? Fui esquecendo o quanto era bom passar só as férias com você, pois comecei a entender o quanto precisava de você em todos os meses do ano. Eu comecei a entender. E esse foi o problema. Você casou, começou a ter sua outra família e eu não cabia nela. Eu era um peso, mas eu só queria você. A gente acha que o tempo cura tudo, mas não é bem assim.


Há um tempo entrei na terapia. Ligando os pontos é fácil chegar onde tudo começou: na sua ausência. O meu medo de relacionamentos, de estabilidade, minha sensação que as pessoas sempre iam me deixar, meu medo de nunca ser boa o suficiente pra alguém ficar, meu medo de ter um filho. Como uma ausência pode criar um vazio tão presente?


Eu achei que tinha superado. Que tinha colocado uma pedra nisso. E, depois de mais de cinco anos sem nos falar, você reapareceu. Assim que terminamos o almoço, tive uma crise de pânico atrás da banca de jornal. Chorei desesperadamente, soluçava, me tremia. Foi aí que percebi que, na verdade, a ferida nem tinha cicatrizado.


Você quer recomeçar e eu juro que também quero. Como eu quero dar mais uma chance para gente, mas já não sei como. Tenho medo de depois de tanto tempo te deixar entrar e, sei lá, por qualquer motivo, você sair de novo. Queria te chamar para um jantar ou almoço, pensei nisso várias vezes, mas como é que vai ser? Do que vamos falar? Vai doer ouvir sobre tudo o que aconteceu e eu não sabia, mas também pode ser bom, né?


Sabe, depois daquele almoço, vi o quanto somos humanos. E o quanto somos falhos, né? Erramos. Eu também tenho minha parcela de culpa. Você não é má pessoa, na verdade, sempre lembro da sua alegria e disposição em ajudar. Você só foi uma pessoa que não soube o que fazer. E eu também não sei o que fazer agora.


Passei o dia todo evitando as redes sociais. Hoje é aquele dia, sabe? Das fotos, dos textos bonitos, das homenagens. Nunca é um bom dia pra mim. Consegui ficar neutra o dia todo, até agora. Disse pro João que ia ler no quarto, ele me deu um abraço forte – ele sabe o quanto hoje é complicado – perguntou se eu tinha certeza e foi jogar videogame. Encostei a porta, sufoquei o choro no travesseiro e, logo depois, comecei esse texto.


Infelizmente não dá para mudar uma vírgula do passado, mas sei que temos a chance de fazer um futuro diferente, né? Porém, por mais que pareça, não é tão fácil recomeçar. Abri e fechei nossa conversa no whatsapp umas doze vezes. Tentei escrever: feliz dia dos.. Não consegui terminar nenhuma frase. Ficou o silêncio.


Quem sabe, no próximo ano seja diferente, né? Talvez façamos um almoço e possamos compartilhar as histórias engraçadas do último ano, né?

É…

Tomara.

#DiaDosPais

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