35-thamaralaila-descobrirse-conexcao.jpg
  • Thamara Laila

A FERIDA ABERTA

em silêncio, lembro de pedir que esse fosse um ano de autoconhecimento e cura. me recordo de ler nos livros que para nos curarmos precisamos trazer as sombras para luz. até aí achei que daria conta, mas não sabia o quão profundo precisaria mergulhar. uma parte de mim acreditou fielmente que poderia me curar só nadando na superfície. desde o dia um na terapia, sentada no sofá bege, tirando e colocando aliança do dedo, olhando inquieta para todos os pontos da sala esverdeada. desde o dia um, eu sabia onde precisaria mexer. até aí achei que daria conta, mas não fazia a menor ideia que bastava tocar, levemente, naquela ferida, para ela se abrir, como um machucado recém-criado, com toda dor, ardência, memória e intensidade. eu jurava para mim mesma que poderia apenas citar. que apenas citando tudo o que aconteceu, eu iria curar. trazer a sombra para luz, era o que dizia o livro. não lembro de nenhum instrução sobre o que fazer quando a ferida voltasse a ficar aberta, exposta, chorando e sangrando.


cá estou. eu e a ferida que parece que nunca mais vai curar. a vontade é fugir de mim, dela. desaparecer. empacotar o que restou e dar tchau tchau. mas ela vai comigo, não é mesmo? porque ela sou eu.  um aperto toma conta do meu peito e quando me dou conta já estou em prantos, naquele choro que balança o corpo, tira o ar e faz arder os olhos. raiva. tristeza. culpa. vergonha. medo. acolhe suas sombras, os livros disseram. mas como você acolhe aquilo que mais te feriu? como você pega essa ferida e simplesmente dá espaço? em um ato de raiva e exaustão, coloquei as mãos com força em cima do corte, CURA! CURA AGORA! gritei, impaciente, mas nada estancava o sangue, muito pelo contrário, toda a raiva só fazia a lesão se agravar mais.


perdi as forças. deitei na poça de sangue, encarei o céu e ali, naquele chão gelado, permitir que sangrássemos juntas.  não tenho mais três, nem cinco, nem quinze. não sou mais aquela criança, mas me sinto tão fragilizada quanto. não vem ninguém para ajudar, né? não vem ninguém nos pegar no colo e nos salvar, né? não tem ninguém percebendo o que está acontecendo aqui de novo, né? aloooou! oieeeeee! a gente está aqui. olha, repara. esse é mais um grito de socorro. aloooou! oieeeeee! olha para gente, desvia o olhar só um pouquinho e enxerga o que está acontecendo, a gente ainda está aqui…

ninguém apareceu ou aparecerá.


depois de semanas anestesiada, escutei, beeem baixinho meu corpo sussurrar algo. abri um pouco os olhos, virei para o lado e não era mais a escuridão que estavam ali, mas sim uma leve nuvem espelhada com tons de cores suaves. a imagem revelava os hematomas espalhados pelo corpo usado, fraco e a ferida aberta. mas já não era tão denso, nem dolorido. estiquei o braço e ao tocar a própria imagem na nuvem, compreendi. não importava mais como, onde, quem e o porquê. não importava o que permitimos ou aceitamos. só importa essa menina. tiro, com cuidado, o excesso de sangue e com bastante delicadeza levo as mãos ao peito aberto, seguro a ferida com amor e, entre lágrimas de acolhimento, digo em voz alta: sinto muito, me perdoe, eu te amo e sou grata. e é naquele momento de maior fragilidade e fraqueza onde encontro, pela primeiríssima vez, força o suficiente para seguir.

0 visualização

Posts recentes

Ver tudo

PASTEL MURCHO

hoje tinha pastel dormido em cima da pia ao dar uma mordida, fui levada direto a pequena Thamara que sempre escolhia pastel para levar nas comemorações da escola mamãe chegava à noite, tirava o sa

vem desbravar no instagram

  • Instagram
  • YouTube
  • Twitter
  • Pinterest
  • Spotify ícone social

Todos os direitos reservados © 2012 - 2020 por Thamara Laila

Site criado com Wix.com